"Se nas cavernas não se encontram os dragões e outros animais horrendos das lendas antigas, não se deve crer, no entanto, como a maioria dos turistas, que o mundo subterrâneo é um deserto no qual só existem os minerais."

B. Gèze (1968)



O meio cavernícola

O meio cavernícola é caracterizado por uma elevada estabilidade ambiental e pela ausência permanente de luz. De uma maneira geral, o ambiente físico das cavernas varia menos que o ambiente epígeo (externo) circundante. As temperaturas no interior das cavernas tendem a ser constantes, aproximando-se da média das temperaturas externas anuais. As cavernas são ainda caracterizadas pela elevada umidade, que muitas vezes tende à saturação.

Os produtores primários (vegetais) são ausentes no ambiente cavernícola, com exceção de poucas bactérias quimioautotróficas. Por este motivo, há o predomínio de organismos decompositores, uma vez que toda a energia ou alimento aportado à caverna procede do meio epígeo.

O alimento penetra na caverna continuamente ou em "pulsos", carreado por agentes físicos ou biológicos. A penetração e disseminação de matéria orgânica particulada dá-se por cursos d'água ou através de aberturas verticais no teto e paredes. Além delas, a matéria orgânica dissolvida, junto a bactérias e protozoários presentes em águas de percolação penetra através das fissuras da rocha. Finalmente, fezes ou cadáveres de animais que transitam nas cavernas com certa regularidade são também importantes fontes de recursos, principalmente naquelas permanentemente secas. Desse modo, o tipo de recurso e a forma de disseminação no sistema são importantes determinantes da composição e abundância da fauna presente no meio hipógeo.

Os organismos cavernícolas podem ser classificados em três categorias (Holsinger & Culver, 1988, baseado no sistema de Schinner-Racovitza): troglóxenos, troglófilos e os troglóbios

Troglóxenos

Troglóxenos são organismos frequentemente encontrados no ambiente subterrâneo, mas saem regularmente do mesmo para se alimentar. Geralmente ocorrem nas proximidades das entradas das cavernas, mas eventualmente grandes populações de troglóxenos podem ocorrer em locais mais distantes das entradas. Desta forma, muitos destes organismos atuam como importadores de energia do meio epígeo, sendo muitas vezes os principais responsáveis pelo fluxo energético em sistemas cavernícolas, como cavernas permanentemente secas. Exemplos: morcegos, aves como andorinhões, corujas.

Troglófilos

Troglófilos são organismos capazes de completar seu ciclo de vida no meio hipógeo e/ou epígeo. Certas espécies podem, ainda, ser troglóxenas sob certas circunstâncias e troglófilas em outras (e.g. cavernas com grande disponibilidade de alimento). Exemplos: grilos, besouros, baratas, aranhas, piolhos-de-cobra.

Troglóbios

Diversos troglóbios têm sido descritos em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde a princípio achava-se que em cavernas tropicais a existência de troglóbios era reduzida pelas poucas mudanças ambientais ocorridas nas épocas glaciais. Hoje, sabe-se que os períodos glaciares e interglaciares fizeram com que as matas expandissem e retraíssem, ora secas, ora úmidas, proporcionando a colonização e o isolamento de organismos epígeos, iniciando assim o processo de adaptação à vida nas cavernas. Prova disso é o elevado número de espécies descobertas a cada ano, muitas vezes caracterizando casos de relictos geográficos, ou seja, espécies nas quais seus parentes próximos são encontrados em regiões distantes, não-contínuas como é o caso do bagre Taunayia sp. da Toca do Gonçalo, município de Campo Formoso-BA cujo parente só é encontrado em São Paulo. Outras mudanças como o abaixamento do nível do lençol freático e alterações no relevo também podem ter contribuído na evolução desses organismos.

Uma das características ecológicas dos troglóbios frequentemente citada na literatura é o pequeno tamanho das populações, em vista de sua distribuição geográfica restrita, usualmente limitada a um ou mais sistemas dentro de corpos rochosos contínuos. Possuem também baixa tolerância a flutuações ambientais e baixa capacidade de reposição de perdas populacionais causadas por perturbações ambientais. Assim, as espécies troglóbias são muito vulneráveis, permanentemente ameaçadas por riscos ambientais reais ou potenciais, desde atividade de mineradoras até visitação de cavernas, o que torna urgente seu estudo.

Para saber mais

  • Camacho, A.I. (ed.), 1992. The natural history of biospeleology. Monografias del Museo Nacional de Ciencias Naturales, Madrid, 680 p. ISBN 84-00-07280-4
  • Botosaneanu, L. (ed.), 1986. Stygofauna Mundi. E.J. Brill, Leiden. ISBN 90-04-07571-2
  • Culver, D.C., Kane, T. C. & Fong, D. W., 1995. Adaptation and natural selection in caves. Harvard University Press, Cambridge, 223 p. ISBN 0-674-00425-6
  • Gibert, J., Danielopol, D. L. & Stanford, J. A. (eds.), 1994. Groundwater ecology. Academic Press, San Diego, 571 p. ISBN 0-12-282110-6
  • Gillieson, D., 1996. Caves: processes, development and management. Blackwell Publs., Cambridge, 324 p. ISBN 0-631-19175-5.
  • Chapman, Philip C., 1992. Caves e Cave life. Harper Collins Publishers. Somerset, UK. 97 pict. 219 p.
  • Culver, D.C., 1982. Cave Life. Evolutions and Ecology. Harvard University. Press. Cambridge, Massachussets and London, England. 189 pp.
  • Poulson, T. L., White, W.B. 1969. The Cave Environment. Science. 165:971-981