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Quando
em 1708 os bandeirantes subiram aquela serra e se depararam com a semelhança
de seu contorno com a de um rosto, chamaram-na, no primeiro registo que
se conhece, de serra da Cara de Gigante ou Caraça. Começava
ali a relação humana com aquele magnífico cenário
natural e histórico.
Localização
A serra do Caraça e Colégio
homônimo situam-se na parte nordeste do Quadrilátero Ferrífero,
no centro-leste do estado de Minas Gerais, Brasil, na altura do paralelo
20º de latitude sul e 43º30` de longitude oeste. O pico do Inficionado
está localizado na serra do Caraça e divide os municípios
de Catas Altas e Mariana.

O acesso preferencial é feito pelo Colégio
do Caraça, situado a 120 km de Belo Horizonte. A partir de Belo
Horizonte pega-se a rodovia BR 262 até o trevo de Barão
de Cocais, onde vira-se à direita na BR 365, até 5,0 Km
antes da cidade de Santa Bárbara, onde novamente
toma-se à direita seguindo até os portões do Santuário
do Caraça e posteriormente até o Colégio do Caraça.
A partir daí o acesso é feito a pé, através
de uma longa e acidentada trilha que dependendo do peso das mochilas,
pode demandar até 5 horas de caminhada. A parte inicial do trajeto
possui uma altitude média de 1.200 metros e é caracterizada
por um vale amplo drenado pelo rio Caraça. A dificuldade maior
do percurso fica por conta de dois trechos bastante íngremes onde
são vencidos quase 900 metros de desnível. A base para as
explorações é montada próxima do pico, a 2.064
metros de altitude. O acesso para as porções leste e sul
do pico podem ser feitos através de estrada não pavimentada
em direção a Catas Altas, mesma estrada que dá acesso
à mina da SAMITRI.
Contexto
espeleológico
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A
descoberta de várias cavidades na serra do Caraça
pode ser considerada um marco na história das explorações
de cavernas em quartzito. Até então eram poucos os
locais onde existiam grandes cavidades nesta litologia, destacando-se
quase absoluto neste cenário, os Tepuis Venezuelanos.
A
Gruta do Centenário e a Gruta da Bocaina mudaram consideravelmente
os padrões de "tamanho".
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Histórico
Desde o século 19 as grutas do
Pico do Inficionado já eram conhecidas. Pesquisadores e naturalistas
que percorreram a região nessa época já citam a existência
de rios subterrâneos. Contudo, os primeiros registros espeleológicos
só ocorreram em 1952, quando os padres do Colégio do Caraça
fizeram uma topografia rudimentar da Gruta do Centenário.
Muitos anos se passaram e a região
ficou sendo visitada somente por turistas que realizavam visitas ocasionais
às cavernas. Durante esse tempo muito lixo foi deixado dentro das
fendas, principalmente próximo aos abrigos. Do ponto de vista espeleológico,
um trabalho sistemático somente voltou a ser realizado a partir
de 1996, quando foram retomadas pelo Grupo Bambuí as atividades
de exploração, topografia e estudos das cavidades e fendas
do pico e serra do Inficionado.

1996
O ano de 1996 foi dedicado a um reconhecimento preliminar da região
e início dos trabalhos de topografia. Ao todo foram 4 saídas
de campo onde foi explorada somente uma das fendas. Coincidentemente a
mesma que havia sido explorada pelos padres a alunos do Caraça
há mais de 50 anos. Só que o acesso foi feito a partir de
outra entrada, localizada no flanco norte da Garganta do Diabo. A conexão
com a parte histórica foi realizada somente na quarta expedição
à região, quando o sistema inteiro passou a ser denominado
Gruta do Centenário.
A partir
dessa nova entrada e depois de uma série de abismos, foi interceptada
uma drenagem que seguia na direção sudeste em galerias perfeitamente
retilíneas e altas. Esse rio passaria a ser o principal direcionador
das explorações, inicialmente a jusante. Nesse trecho foram
descobertas uma série de cachoeiras com alturas de 6 a 31 metros
e uma nova entrada (Abismo do Inficionado - P92) no lado oposto da garganta.
Esta passou a ser o acesso preferencial das explorações,
uma vez que evita uma série de passagens molhadas existentes em
níveis superiores.
Ainda em
96 foi explorada a parte inferior do Abismo do Inficionado, caracterizada
por uma longa rampa com inclinação média de 45 graus
por onde o rio esculpiu uma de suas mais belas formas: o Tuboágua.
O ponto final é marcado por uma galeria muito estreita e alta.
Não foi descartada a possibilidade da existência de continuações
em níveis superiores, embora as chances sejam remotas. Inicialmente
foi atribuída a cota de -360 metros a esse ponto, passando a ser
o maior desnível do Brasil. A partir de 97, foram descobertas entradas
superiores que ampliaram o desnível para 405 metros e o título
de maior desnível do mundo nessa litologia, já publicado
no Atlas das Grandes Cavidades não Calcárias (1997), alcançando
repercussão mundial.
1997
Depois
de encerrada as explorações na primeira fenda do maciço,
já no início de 97, transferimos nossa atenção
para a entrada situada poucos metros à direita. As características
similares e a proximidade alimentavam a esperança de uma futura
conexão, o que ampliaria consideravelmente o potencial do sistema.
Logo no início um novo poço com 120 metros de desnível
(batizado posteriormente de Abismo da Velózia) consagraria ainda
mais a cavidade, com o título de maior lance livre do Brasil.
A parte
inferior desse trecho, conhecido como Rede Velózia,
é bem mais labiríntica que o resto do sistema. A direção
NW-SE predomina, sendo as galerias transversais bem menores e caracterizadas
por fendas inclinadas lateralmente. Uma dessas é responsável
pela ligação de todo o sistema, interceptando várias
fendas. Nesse trecho, destacam-se duas galerias principais e uma nova
drenagem. A primeira a ser explorada foi o Tuboágua do Chantilly,
que drena a maior parte da água e parece muito com o seu homônimo.
Observando-se o perfil de ambos podemos notar a semelhança dos
níveis das rampas e trechos inclinados.
O final,
bastante previsível, não poderia ser outro: um longo e apertado
conduto por onde o rio desaparece, a 400 metros de profundidade.
O Conduto
do Areião era a última alternativa desse trecho. Marcado
por uma longa rampa de areia, destoa no resto dos condutos que são
percorridos por drenagens ativas. A princípio pensava-se tratar
de um nível superior do Tuboágua do Chantilly, mas depois
de 200 metros, foi encontrado um novo rio e as esperanças de ampliação
do desnível da gruta. Em agosto/97, nos deparamos com uma nova
série de abismos, atingindo a profundidade de 390 metros. A galeria
continuava ampla (pelo menos maior do que as outras conhecidas nessa profundidade)
e interrompemos a exploração pela falta de tempo e equipamento.
1998
O ano de
1998 foi dedicado à exploração minuciosa do Conduto
do Areião. A galeria do rio continuava, embora bem mais estreita
que a sua parte inicial. Também foram encontrados vários
locais parcialmente obstruídos por blocos deslocados da parte superior
dos condutos. Depois de realizadas três expedições
foi atingida a marca de 481 metros de profundidade e a projeção
horizontal contabilizou 3.790 metros; recordes mundiais absolutos em cavidades
dessa litologia. O ponto final da galeria é caracterizado por um
pequeno salão com grande quantidade de blocos instáveis
que obstruem a passagem.
O rio se
perde por entre pequenas fendas de onde pode ser notado uma forte corrente
de ar. Certamente a gruta continua, embora as futuras explorações
nesse local exijam o uso de técnicas de desobstrução.
Paralelamente
a essas atividades, foi realizada uma ampla prospecção na
escarpa sul do maciço, na área correspondente a Reserva
Particular da Samitri, na Mina da Alegria. Além de servir para
um maior entendimento global da região, nela poderiam ser encontradas
as ressurgências das drenagens da parte alta do maciço. E
realmente foram localizadas diversas nascentes, mas em termos espeleológicos,
a maioria ficou limitada a pequenos córregos que possuem trajetos
aéreos e subterrâneos intercalados. As drenagens subterrâneas
geralmente são curtas ou ocorrem em meio a blocos depositados ao
longo da encosta.
Como exceção
a essa regra podemos citar a Gruta da Fumaça, que possui galerias
nos mesmos padrões e direções das outras cavidades
exploradas na parte alta. Sua entrada é bastante alta e abriga
uma pequena drenagem temporária. Depois de alguns metros a galeria
torna-se estreita e vertical ascendente. As explorações
foram interrompidas depois de 100 metros.
Outra cavidade
de interesse é a Gruta do Bloco Suspenso, descoberta em julho de
1998. Sua entrada está localizada no sul da Garganta do Diabo e
foi explorada e topografada até a profundidade de -172 metros.
1999
Depois
das explorações da Gruta do Bloco Suspenso resolvemos dirigir
a nossa atenção para o lado noroeste do maciço. A
grande vantagem dessa área eram as entradas localizadas em grandes
altitudes, ampliando o potencial dos abismos.
A primeira
fenda explorada nessa região foi batizada de Gruta da Bocaina,
pois tínhamos uma leve esperança de encontrar uma drenagem
que seguisse na direção do Vale da Bocaina. Logo o primeiro
abismo revelou um lance vertical com 116 metros (segundo maior do Brasil,
só perdendo para o Abismo da Velózia na Gruta do Centenário
- 120 m).
Uma segunda
investida, realizada em junho em conjunto com os espeleólogos franceses
do GSBM (Groupe Spéléo Bagnols Marcoule), ampliou consideravelmente
o potencial da gruta. As explorações atingiram a marca de
304 metros, sendo interrompidas pela falta de equipamentos.
Além
disso, foram encontradas três drenagens independentes, o que permitia
prever um longo trabalho pela frente.
2000
Novas explorações
na Gruta da Bocaina elevam o seu desnível para 390 metros. A gruta
segue o mesmo padrão das outras cavidades já exploradas,
sendo caracterizada pelas galerias estreitas e as várias cachoeiras.
As equipes encerraram as atividades devido à falta de tempo, deixando
pela frente boas continuações.
2001
Neste ano foi realizada uma expedição conjunta
com o grupo frances, GSBM (Groupe Spéléo Bagnols Marcoule).
A maior descoberta desta expedição foi a gruta Alaouf, que
acabou se tornando a terceira gruta mais profunda do Brasil com 294m de
desnível e 1200m de projeção horizontal. A Gruta
da Bocaina eleva o seu desnível para 404 metros e chega a 3220
m de projeção horizontal
A próxima
expedição
Devido
à facilidade de acesso (120 km de Belo Horizonte) qualquer final de semana
prolongado pode ser utilizado para exploração das grutas do Pico do Inficionado.
Com isso, as expedições são marcadas sem muita antecedência e normalmente
ocorrem mensalmente de janeiro a agosto. Depois dessa data, milhares de
andorinhões utilizam as cavernas como abrigos para seu acasalamento e
reprodução. Com isso, as visitas ficam suspensas. As próximas expedições
devem se concentrar na exploração da Gruta da Bocaina, que já atingiu
a marca de 404 metros, restanto ainda várias galerias a serem exploradas.
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