|
 |
No
centro-sul baiano, às margens do rio São Francisco,
uma longa serra quebra a monotonia de uma paisagem aplainada.
São
quilômetros e quilômetros de calcário esculpidos
pacientemente pela ação implacável do tempo.
O relevo arruinado, caracterizado por extensos campos de lapiás
e recheado com dezenas de grutas são as maiores testemunhas
desse fenômeno.
|
Localização
A Serra do Ramalho está localizada
na divisa dos estados de Minas e da Bahia, às margens do rio São
Francisco, englobando os municípios de Carinhanha, Ramalho, Coribe
e Feira da Mata. Até bem pouco tempo atrás, a região
era praticamente desabitada e carente de vias de acesso. Contudo, na década
de 70, um projeto de assentamento rural, criou 23 agrovilas. Originalmente
cada uma possuía 250 casas, além de escola, mercado, posto
médico e toda estrutura para abrigar as famílias dos colonos,
que trabalhavam em áreas ao redor das vilas.

Atualmente resta pouco do projeto original. A grande
parte dos habitantes dedica-se ao comércio e as áreas rurais
(originalmente com 10 mil m2) foram agrupadas em propriedades maiores.
A falta de incentivos governamentais aliado às duras condições
climáticas da região, fez com que a maioria das fazendas
se tornassem improdutivas. E, o que deveria ser uma região eminentemente
voltada para a agricultura, tornou-se mais um exemplo de um projeto de
assentamento mal sucedido.
Histórico
das explorações
O potencial
espeleológico da Serra do Ramalho foi revelado, quase que acidentalmente,
em 1990. Na época, parte de uma equipe que realizava explorações no norte
de Minas (Montalvânia) resolveu conferir algumas "dicas" no município
vizinho de Feira da Mata (Bahia). Os moradores desta região guardam uma
íntima relação com as cavernas. Seja para retirada de água, como local
de lazer ou através das lendas que se perpetuam durante gerações. Uma
delas conta que um padre entrou numa gruta, de onde sai um rio, e nunca
mais voltou. E todos que tentaram encontrá-lo acabaram se deparando com
um bicho peludo que mora dentro d'água. O que não se sabe é se o padre
transformou-se no bicho ou foi devorado por ele.
Apesar
de não desvendar o mistério, acabamos descobrindo uma fantástica caverna,
a Boca da Lapa, com 3 km de extensão. Além disso, estavam abertas as portas
para as explorações de uma nova região cárstica: a Serra do Ramalho.

Voltamos
à região em 92. Nessa primeira fase buscávamos ampliar as áreas prospectadas
deixando a topografia e documentação para um segundo momento. Seguindo
à risca essa premissa, descobrimos dezenas de cavidades, destacando-se
a Gruna do Engrunado (4 km) à Gruna do Anjo.
Depois
disso, a região caiu no esquecimento, voltando a ser explorada somente
em 1998. Nesta nova investida, as explorações voltaram-se para a porção
mais oriental da Serra, junto da planície do São Francisco, onde foram
surpreendidas pela beleza do carste e a quantidade de cavernas. A maioria
delas seguem um padrão bem típico, sendo constituídas de ressurgências
temporárias que se abrem na base do maciço. Neste ano, em duas expedições,
foram explorados 9 km na Gruna da Água Clara, além de surgirem informações
sobre dezenas de outras cavidades.
Com esse
cenário altamente promissor, foi organizada a Expedição Bahia '99, em
conjunto com espeleólogos franceses do GSBM (Groupe Spéléo Bagnols Marcoule).
O objetivo era concluir o mapeamento das grutas já conhecidas, principalmente
a Água Clara e verificar novas cavidades. Em 15 dias de atividades foram
descobertas 16 cavidades e mapeados mais de 23 km, destacando-se 5 km
na Água Clara e 8 km no Boqueirão (descoberta durante a expedição). Estudos
biológicos revelaram uma fauna surpreendente, destacando-se a descobertos
de novas espécies de peixes e isópodes troglóbios. Também foi encontrado
um espetacular sítio paleontológico que abriga pelo menos três exemplares
de preguiças gigantes fossilizadas.
Atualmente
já são conhecidos mais de 50 km de cavernas na Serra do Ramalho, existindo
ainda extensas áreas totalmente inexploradas. As próximas expedições devem
concentrar-se na continuidade dos trabalhos das grutas parcialmente mapeadas
(Boqueirão e Peixes, por exemplo), além de iniciar estudos geológicos
que tentem explicar os processos cársticos que atuaram na região.
Principais
grutas da região
Boqueirão
(15.170 m): a gruta é formada por uma rede de galerias vadosas,
sendo a sua entrada principal uma ressurgência temporária
de grandes proporções. Outra característica marcante
do sistema são as galerias fósseis, situadas em níveis
superiores e que, aparentemente, tiveram uma gênese independente
do atual sistema de drenagem. O potencial da caverna supera facilmente
a marca de 10 km.
Gruna
da Água Clara (13.880 m): Constituída basicamente de
uma galeria principal que se estende por mais de 7 km. Ao longo do seu
traçado sinuoso podem-se observar seções que variam
desde uma elipse predominantemente horizontal até amplas galerias
de seção abobadada e com mais de 20 metros de altura. Na
época das chuvas a gruta é inundada sendo transportado para
o seu interior grande quantidade de matéria orgânica. Troncos
com mais de 10 metros de comprimento e 60 cm de diâmetro são
encontrados nos seus condutos, atestando a intensidade desse fenômeno.
Lapa
do Peixe (7.020 m): a drenagem temporária, que percorre boa
parte da Gruna da Água Clara e Gruna dos Índios, também
é responsável pela formação da Lapa do Peixe.
A gruta pode ser dividida em duas áreas distintas, representadas
por uma galeria principal de grande dimensão (10 metros de largura
e 3 de altura) e várias ramificações. Entre elas
existe uma entrada que serve de sumidouro para a atual drenagem, que é
conhecida localmente como Gruna da Água Escura. As duas áreas
são conectadas por uma galeria secundária e o trecho a montante
encontra-se livre do atual curso d'água que percorre a gruta nos
meses de chuva. Foram encontrados nessa cavidade pelo menos três
exemplares de preguiça gigante em excelente estado de conservação.
Várias galerias inexploradas.
Gruna
do Enfurnado (5.840 m): A gruta possui duas grandes galerias principais,
suas dimensões são por vezes bastante expressivas, não
e raro encontrar em alguns pontos mais de 30 m de altura e ou 20m na largura.
A gruta tambem apresenta dois níveis distintos, sendo que o mais
baixo é perrcorido por um pequeno riacho.
Gruna
da Lagoa do Meio (4.200 m): Esta cavidade ainda encontra-se em exploração
sendo suas possibilidades de expansão bastante promissoras. Seus
principais destaques são o Salão do Ar Invertido, em aréa
é um dos maiores salões brasileiros. Importante citar a
presença de duas drenagens distintas dentro da caverna, ao qual
convergem em uma galeria onde ainda não foi finalizada a exploração.
Gruna
do Boca (4.000 m): A gruta desenvolve-se básicamente por um
único conduto, seus primeiros 2000m são caracterizados por
diversos tetos baixos sendo que ao final dos mesmos a galeria assume dimensões
mais confortáveis, no entanto denota-se uma crônica falta
de ar, o que dificulta muito sua permanencia. O final da gruta é
demarcado pelo encontro com um riacho subtêrraneo que termina em
sifão.
Gruna
do Engrunado (3.980 m): sua característica básica são
as passagens amplas que se desenvolvem em um traçado sinuoso. Em
vários locais existem duas galerias distintas e paralelas. Em outros,
elas se unem num único conduto com níveis diferentes ou
se sobrepõem. Parte da galeria encontra-se esporadicamente obstruída
por sedimento ou espeleotemas.
Boca
da Lapa (3.050 m): espetacular ressurgência localizada próximo
do povoado de Ramalho (Feira da Mata). Galeria praticamente única
e com dimensões uniformes ao longo de todo o seu trajeto (6 metros
de largura e 10 de altura). Termina num sifão igualmente esplêndido.
Gruna
do Pedro Cassiano (2.660 m): Sistema de córregos anastomosados
permanentes. Foram encontrados até o momento 3 córregos
que foram explorados e mapeados até os seus sifões. A gruta
é utilizada pela população local para retirar água.
Podem existir galerias superiores inexploradas.
Gruna
Baiana (2.260 m)
Gruna
do João Gravatá (1.780 m):
local de coleta de água na fazenda de mesmo nome. A galeria principal
se desenvolve em um traçado sinuoso até desembocar na parte
superior da serra.
|
|